O preto e a psicopatologia - 1

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O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por Admin em Sex Dez 09, 2016 4:12 pm

Há muita coisa que se pode discutir, não é mesmo? Para o texto de Fanon, eu havia pensado em quatro tópicos, mas acho pertinente reduzir para três. O primeiro, então, diria respeito ao que Fanon diz ser "a interpretação psicanalítica do mito preto" (p. 134). Como subdivisões, podemos pensar em:

a) a "imago" que a cultura europeia possui do negro;
b) o inconsciente coletivo europeu e a explicação psicanalítica de sua constituição.

Avante.

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por raquelandrade em Sex Dez 09, 2016 4:21 pm

Achei esse texto fascinante, porque flerta (e muito) com a psquiatria. O autor estabelece uma comparação entre o judeu e o negro e a forma como o inconsciente coletivo europeu vê um e o outro. O judeu é visto como um perigo intelectual, enquanto o negro é visto como um perigo sexual. As mulheres temem o estupro e os homens temem não se equiparar à "potência sexual do negro". Inconscientemente, esses temores estão presentes e geram, segundo o autor, fobias.

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por Camila Dias em Sex Dez 09, 2016 4:26 pm

A discussão sobre o "mito preto" deve ser vista na situação proposta por Fanon, o negro que vai à Europa. O jovem negro que é educado a partir de um sistema de conhecimento e valores construído pelo branco. Dessa forma, como Fanon levanta em vários momentos, o negro incorpora a visão do explorador, adota "subjetivamente uma atitude de branco" (p. 132). O que levaria a uma negação de si mesmo, pensando no branco que não reconhece o negro? Fanon diz que é um mito a ser enfrentado, apesar do fato de que quando o negro abandona o lar, ao contrário do que acontece com o branco - que logo encontra identificação entre a estrutura abandonada (família) e a que ele vai abraçar (a social), não há familiaridade entre os ambientes, suas regras e condutas. O que existe, ao contrário, é um estranhamento. O negro "ficará anormal ao menor contacto com o mundo branco".

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por Lídia Generoso em Sex Dez 09, 2016 4:28 pm

Tive dificuldade com o texto especialmente por causa do diálogo com a psiquiatria - Fanon foi psiquiatra, afinal - e da minha limitada carga de leitura sobre esse tema, de modo que me perdoem se meus comentários serão limitados.

Sobre o inconsciente coletivo europeu, Fanon afirma que esse se constitui em torno da fobia do diferente, nesse caso personificado no negro que é um perigo físico e uma ameaça sexual. Nesse sentido, vale a pena perceber que as caracterizações presentes no que Fanon descreve como inconsciente coletivo europeu sobre o negro aparecem nas descrições de Sartre da poesia da negritude. Se um inconsciente coletivo realmente existe, às vezes, nem mesmo os intelectuais escapam a ele, rs.

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por raquelandrade em Sex Dez 09, 2016 4:29 pm

Camila, esse foi um dos pontos que achei mais relevantes no texto. Até porque, acho que o mesmo acontece com o brasileiro. Nós também nos identificamos com as princesas de contos europeus, ou com os heróis anglo-saxônicos. Acho que o brasileiro sofre da mesma falta de identidade que o negro, do exemplo de Fanon.

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por Camila Dias em Sex Dez 09, 2016 4:32 pm

raquelandrade escreveu:Achei esse texto fascinante, porque flerta (e muito) com a psquiatria. O autor estabelece uma comparação entre o judeu e o negro e a forma como o inconsciente coletivo europeu vê um e o outro. O judeu é visto como um perigo intelectual, enquanto o negro é visto como um perigo sexual. As mulheres temem o estupro e os homens temem não se equiparar à "potência sexual do negro". Inconscientemente, esses temores estão presentes e geram, segundo o autor, fobias.

Achei tão problemáticas essas questões... De onde vem esse teor sexual do inconsciente do europeu em relação ao negro? Porque, ao que me parece, esses frames inconscientes têm algum tipo de fundamento anterior. Essa visão tem relação com a mestiçagem, com a ideia do homem selvagem? É isso? São considerados lascivos? Promíscuos? Acho que sim, né...

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por raquelandrade em Sex Dez 09, 2016 4:33 pm

Um outro elemento presente no texto, sobre esse inconsciente coletivo, vem de uma postura oposta mas que tem origem na mesma fonte. Fanon fala sobre as mulheres que fantasiam em como seria fazer amor com um negro. Embora nesse caso não haja medo, mas sim curiosidade (e desejo), a ideia do negro como um ser demasiadamente sexual está, novamente, presente.

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por iurybelchior em Sex Dez 09, 2016 4:33 pm

Desculpa a demora, parei pra tomar café... Essa pegada bem Jung é o forte desse texto. A própria ideia de inconsciente coletivo e como isso é fomentado é interessante e complicada. Vai parecer que estou fazendo uma piada, mas é sério: ao ler a questão do mito preto vi como ele é empiricamente possível a nós, hoje. Gente, isso é praticamente o negão do whatsapp. realmente há, de uma postura eurocêntrica, a demonização do preto com fundo sexual.

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por Admin em Sex Dez 09, 2016 4:34 pm

Vocês repararam que Fanon tem uma ideia de inconsciente coletivo diferente da de Jung?

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por Admin em Sex Dez 09, 2016 4:35 pm

Para ele, a questão é cultural.

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por renanandrade em Sex Dez 09, 2016 4:35 pm

Lídia Generoso escreveu:Fanon afirma que esse se constitui em torno da fobia do diferente, nesse caso personificado no negro que é um perigo físico e uma ameaça sexual.

Acho que esses temores do europeu em relação ao negro são reminiscências das ideias eugenistas, que atribuíam ao negro qualidades físicas como força e resistência e qualidades morais como ímpeto e um lado emocional proeminente.

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por raquelandrade em Sex Dez 09, 2016 4:35 pm

Camila, acredito que essa ideia sobre o negro venha da mesma fonte que povoava o imaginário Português sobre as índias brasileiras: o fato de virem de um lugar quente, vestirem pouca (ou nenhuma roupa)... Creio que diz muito mais da fantasia "branca" do que da realidade...

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por iurybelchior em Sex Dez 09, 2016 4:36 pm

O preto como animal reprodutor, bom pro trabalho, não acho isso nenhum absurdo. O mundano, o animal, em oposição ao espírito, ao intelecto, ao mundo civilizado europeu. Gente, isso é muito europeu!

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por Camila Dias em Sex Dez 09, 2016 4:36 pm

Sim...é exatamente a definição de mito... "...particularidade ou fato que, não tendo sido real, simboliza não obstante uma generalidade que se deve admitir"...

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por renanandrade em Sex Dez 09, 2016 4:39 pm

iurybelchior escreveu:O preto como animal reprodutor, bom pro trabalho, não acho isso nenhum absurdo. O mundano, o animal, em oposição ao espírito, ao intelecto, ao mundo civilizado europeu. Gente, isso é muito europeu!

Isso que eu quis dizer há pouco, esse é o cerne da eugenia, "ciência" que vigorou até a segunda guerra mundial. Branco ligado à racionalidade, ao intelecto, e negro ligado à emoção e ao corpo.

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por Admin em Sex Dez 09, 2016 4:39 pm

O mito é fantasia, naturalmente. Fanon indica como pensam os europeus, escrevendo como se fosse um deles falando: "[...] eles têm a potência sexual. Pensem bem, com a liberdade que têm em plena selva! Parece que dormem em qualquer lugar e a qualquer momento. Eles são genitais. Têm tantos filhos que não os contam mais. Vamos ficar atentos. Tomar cuidado senão eles nos inundarão com pequenos mestiços" (p. 138).

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por iurybelchior em Sex Dez 09, 2016 4:39 pm

Admin escreveu:Para ele, a questão é cultural.

Eu acho que aí é que mora o problema e a complexidade. Essa tensão cultura-mente-sociedade me parece um tríangulo indissociável quando as discussões se aprofundam. Você tensiona os ângulos de força desse triângulo, mas parece ser impossível rompê-lo.

Se vc não tivesse feito a ressalva eu não ia nem lembrar. As implicações disso mudam os rumos das nossas interpretações de outros pontos do texto.

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por raquelandrade em Sex Dez 09, 2016 4:40 pm

Como na discussão anterior, falávamos sobre conceitos que perduram. Essa imagem do negro como ser excessivamente sexual perdura, até os dias de hoje. Os "gringos" que vem ao Brasil no carnaval buscar as negras, para ter relações sexuais. É a permanência deste conceito! E as coisas estão tão enraizadas que muitas vezes nem as questionamos...

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por iurybelchior em Sex Dez 09, 2016 4:43 pm

renanandrade escreveu:
iurybelchior escreveu:O preto como animal reprodutor, bom pro trabalho, não acho isso nenhum absurdo. O mundano, o animal, em oposição ao espírito, ao intelecto, ao mundo civilizado europeu. Gente, isso é muito europeu!

Isso que eu quis dizer há pouco, esse é o cerne da eugenia, "ciência" que vigorou até a segunda guerra mundial. Branco ligado à racionalidade, ao intelecto, e negro ligado à emoção e ao corpo.

Mas Renan, ce não acha que existe uma certa experiência civilizatória desse paradigma? Que ele seja cultural? Ou melhor, que ele vai além da prática de uma eugenia, e que esta talvez seria decorrente dessa visão cultural?

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por Admin em Sex Dez 09, 2016 4:54 pm

A explicação psicanalítica do mito é que na foi muito explorada, na discussão. Trata-se, segundo Fanon, de um mecanismo de projeção, que é pré-lógico. De acordo com o autor, “projetando suas [próprias] intenções no preto, o branco se comporta “como se” o preto as tivesse realmente” (p. 143). E que intenções são essas? Aquelas que se relacionam aos instintos, a uma “nostalgia irracional de épocas extraordinárias de permissividade sexual, cenas orgiásticas, estupros não sancionados, incestos não reprimidos” (p. 143). São fantasias, o mesmo material da poesia, só que usado de um modo socialmente devastador, porque leva à negação do outro, isto é, daquilo que se quer negar em si mesmo. Vamos para o próximo tópico?

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por Marice Gonçalves em Sex Dez 09, 2016 5:01 pm

Acho que o cerne da questão está na disseminação cultural da figura do negro. O mito do negro vem sendo transmitido até hoje, como bem ressaltaram o Yuri e a Raquel. E a ideia de que esse mito é uma oposição à ideia do homem branco me parece também bem pertinente. O centro da questão, realmente, é propagação cultural das ideias.


Última edição por Marice Gonçalves em Sex Dez 09, 2016 5:03 pm, editado 1 vez(es)

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por renanandrade em Sex Dez 09, 2016 5:02 pm

iurybelchior escreveu:
renanandrade escreveu:
iurybelchior escreveu:O preto como animal reprodutor, bom pro trabalho, não acho isso nenhum absurdo. O mundano, o animal, em oposição ao espírito, ao intelecto, ao mundo civilizado europeu. Gente, isso é muito europeu!

Isso que eu quis dizer há pouco, esse é o cerne da eugenia, "ciência" que vigorou até a segunda guerra mundial. Branco ligado à racionalidade, ao intelecto, e negro ligado à emoção e ao corpo.

Mas Renan, ce não acha que existe uma certa experiência civilizatória desse paradigma? Que ele seja cultural? Ou melhor, que ele vai além da prática de uma eugenia, e que esta talvez seria decorrente dessa visão cultural?

Sim sim. Acredito que a origem primordial dessa questão está no êxito civilizatório da Europa. A eugenia surge numa tentativa de explicar a 'superioridade' europeia já observada a partir do século XVIII, e bastante clara no século XIX partindo de pressuposto (que no fundo é a falácia da parte pelo todo) de que se Europa é superior, o europeu também deve sê-lo.

Mas o meu ponto é que a mistificação criada pela eugenia (negro ligado à força, ao corpo, à emoção, por exemplo) permeia tanto o texto do Fanon quanto o do Sartre.

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Re: O preto e a psicopatologia - 1

Mensagem por Admin em Sex Dez 09, 2016 5:10 pm

renanandrade escreveu:
iurybelchior escreveu:
renanandrade escreveu:
iurybelchior escreveu:O preto como animal reprodutor, bom pro trabalho, não acho isso nenhum absurdo. O mundano, o animal, em oposição ao espírito, ao intelecto, ao mundo civilizado europeu. Gente, isso é muito europeu!

Isso que eu quis dizer há pouco, esse é o cerne da eugenia, "ciência" que vigorou até a segunda guerra mundial. Branco ligado à racionalidade, ao intelecto, e negro ligado à emoção e ao corpo.

Mas Renan, ce não acha que existe uma certa experiência civilizatória desse paradigma? Que ele seja cultural? Ou melhor, que ele vai além da prática de uma eugenia, e que esta talvez seria decorrente dessa visão cultural?

Sim sim. Acredito que a origem primordial dessa questão está no êxito civilizatório da Europa. A eugenia surge numa tentativa de explicar a 'superioridade' europeia já observada a partir do século XVIII, e bastante clara no século XIX partindo de pressuposto (que no fundo é a falácia da parte pelo todo) de que se Europa é superior, o europeu também deve sê-lo.

Mas o meu ponto é que a mistificação criada pela eugenia (negro ligado à força, ao corpo, à emoção, por exemplo) permeia tanto o texto do Fanon quanto o do Sartre.

A mistificação é, certamente, anterior à eugenia, que, como teoria, surge no século XIX. Concordo com Renan sobre estar essa mistificação presente em muitos autores que defendem a negritude, e em autores da própria negritude, como Senghor, que afirmou ser a razão grega, e a emoção, negra.

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